PRÉ-PAI

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Como você viveu, ou está vivendo, as últimas semanas de gravidez? Além de tantos desafios e mudanças, como lidar com a ansiedade perto do parto? Entre tantos depoimentos de mães, recebemos um comovente relato de um pai ( que preferiu se manter anônimo) sobre essa fase. Demonstra como os pais tem, também, os seus obstáculos e questões a enfrentar, tanto quanto a mulher, e que a sintonia do casal pode ser a melhor resposta para essa jornada.

Boa leitura!

“No calendário pendurado na parede da cozinha, você vai lá, ainda sonâmbulo, de chinelo, e risca mais um dia. São seis da manhã e os xizinhos estão se acumulando. Você esfrega os olhos como se isso limpasse os seus pensamentos e faz uma conta, apenas por curiosidade: 34 vezes 7 dá…(você apela e faz a soma no celular) são 231 dias (contando com o de hoje) de gestação! Após uma leve comemoração disfarçada, você, como psicólogo formado que é, diz a si mesmo que essa é uma operação inútil, que está apenas buscando esconder a sua ansiedade em se tornar pai. Você chega a refletir que está apenas querendo escapar da angústia, essa mão pesada que tem lhe cutucado diariamente, e para se livrar dela lança mão das mais diversas e absurdas manobras, como bolar perfeccionismos e maneirismos com a sua esposa para a decoração do quarto do bebê, assistir à todos documentários sobre bebês e como eles são geniais, planejar futuras festas de aniversários, listar livros essenciais que lerá antes de dormir e mil outras elucubrações. Você está vivendo de paliativos, e sabe muito bem disso.

Descabelado, exausto, ansioso, confuso e com sono.: este é o retrato de um pré-pai. Ou o meu, pelo menos.

Com um tapa no ar, mando o “eu psicólogo” pras cucuias e emendo outras contas: “quantos dias será que faltam para dar 40 semanas? E se ela vier antes? Será que pode cair nascer no aniversário da avó? Será que a fase da lua vai interferir?” Envergonhado, tento esconder de mim mesmo, eu: que me digo ser um cético seriíssimo, que só acredito no comprovado, no científico e que nunca acreditou na força da lua, nem na energia do universo ou nos esotéricos e horóscopos da vida; e que este cético, quem diria, nos últimos dias, sim, já verificou que daqui a 15 dias teremos o início da Lua cheia, com Áries entrando em Plutão,  justamente quando a minha esposa terá 36 semanas de gravidez. Sim, chego a pensar – não contem pros meus colegas psicólogos formados! – que a Lua e as marés e as estrelas podem trazer minha bebê mais cedo.

Meu celular vibra. É o aplicativo de celular para grávidas (e grávidos) me dando as últimas notícias do bebê que agora tem 34 semanas. Como pode um aplicativo – um puro produto de marketing de uma rede de hospitais- saber mais sobre minha filha do que eu? A minha filha ainda nem saiu da barriga da mãe e essas grandes empresas capitalistas (definição perfeita para a maioria dos hospitais) já tem mais conhecimento sobre o bebê do que eu – este pobre psicólogo despreparado que sabe um pouco de teoria e nada de prática; este esforçado marido que tenta acompanhar a montanha russa de humores e desejos da companheira – e falha. E o pior, começo a refletir, é que esse relacionamento de hierarquia em que “profissionais” sabem tudo e eu nada (mesmo psicólogo formado!), vai continuar também depois parto. Na maternidade, irão me dizer o que devo fazer, o que devo esperar e o que devo aceitar, e de lá permanecerei nas mãos do pediatra; após anos sendo refém de médicos, então, minha guarda será compartilhada ( e da minha filha consequentemente) com a dos professores e diretores da escola, aí será o momento em que ouvirei que “não dou limites” ou que “preciso estar mais presente”, ou pior: ambos! Neste momento, ainda seis da manhã, e que ainda tenho remelas no canto do olho, neste momento sinto uma revolta no meu interior. É um sentimento de impotência e frustração, misturado à um enorme desejo de ter logo a minha filha nos braços e dizer “eu sei quem você é, eu sei da onde você vem.”. Mas ela não está aqui. E nem eu, nem minha esposa, nem a nossa médica, e muito menos um aplicativo de celular, uma Lua cheia ou calendário, sabem quando Isabel virá. Me vejo no escuro, sem respostas, apenas me cabe esperar.

Neste instante, minha mulher chega na cozinha. Ela teve uma noite difícil: a barriga enorme incomoda e distribui dores pelo corpo, o calor impede de dormir, apetite e sede lhe acordaram à noite toda. Mas mesmo assim, ela sorri, esfregando os olhos, ao me ver. Ela estava indo ao calendário, assim como eu. “Agora são 34 semanas, meu amor”. E nossa ansiedade mútua se dilui num sorriso compartilhado, num abraço. Toco-lhe a barriga e me reconecto à minha bebê e à minha mulher. Não se trata de esperar, eu percebo agora, estou fazendo muito mais do que isso . A minha filha já está aqui, já está nascendo. Parto será apenas uma etapa do nascimento. Ela já está aqui, repito a mim mesmo. Sinto Isabel na barriga da minha esposa. Mais calmo, tenho a felicidade de sentir, neste momento, que elas são minhas, e eu sou delas.”

Caio AndreucciPRÉ-PAI

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