ontem hoje [conto]

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Hoje queremos compartilhar com vocês um texto criado pelo brinCadê Caio!
 
Além de ser um membro querido de nossa equipe, o Caio desenvolve trabalhos de criação literária há alguns anos – e quis compartilhar esse conto com a gente! Nesse texto, a partir de sua experiência própria e aqui na nossa casa, ele fala um pouco sobre gravidez, suas expectativas e as memórias que ela pode trazer à tona. Embora com o tom um pouco seco, essa história promete trazer fortes emoções!

ONTEM HOJE

O ônibus sai em dez minutos. Hora de voltar para São Paulo. Sua avó finge que vai pegar algo na cozinha, passa delicada o dedo por baixo do olho. Joana percebe o gesto. Ela que quase ontem era uma menina e derramava lágrimas tão facilmente – agora não sente brotar nada dessa torneira, apenas um vazio na boca do estômago – seus braços pendem como pedras. Dona Maria volta brandindo um pacote de bolachas, como se fosse esse seu trunfo, mas aqueles pingos contidos ainda brilhavam como as únicas joias que ganhou na vida inteira.

Joana agradece com uma reverência desengonçada, sem saber o que fazer. Passa os braços pelos ombros ossudos da senhora e as duas caminham para a porta. Sua mãe ficaria muito feliz. Se despedem. Hoje é a mais nova quem se inclina e beija a testa. Um beijo maternal, protetor, preocupado com o que acontecerá àquela criatura desprotegida na ausência da progenitora. Mas Dona Maria já se empertiga e sorri o sorriso de ferro dos acostumados à dor. O alívio dessa demonstração de força escorre pelo corpo da mulher descendo as escadas. Ela entra no carro. Seus acenos derretem virando a esquina.

 

O tempo era curto. Suas mãos avançavam gentis, precisas, pelo tecido, seguindo o molde de cartolina. Os olhos cansados, piscando devagar. Não podia aceitar nada menos que perfeição. Era preciso seguir os exemplos, continuar a tradição, expandir a história. O chão ia se transformando, o barulho da tesoura tomando conta do ambiente.

Ouvia sua irmã pequena chamar. Conseguia ouvir o latido da velha Lilica, distinguir os passos já extintos e ainda familiares. A panela de pressão apitava. Mal se retirava a mesa do café da manhã, logo se iniciavam os preparativos para o almoço. O avental era colocado, as cebolas cortadas. Seguir o exemplo. Ser precisa e gentil. Os galos do vizinho cantavam. Sua irmã chamava.

O que estava fazendo com aquela tesoura? Sabia que vovó não deixava… Os olhos de Joana brilhavam perante suas obras de arte espalhadas pelo chão. Como era incrível quebrar as regras! Ser dona do próprio destino! Como era fácil manejar a tesoura, olha o que eu cortei! Essa é você essa é a vovó tem a Lilica e tem o cocô dela! Logo os olhos da irmã também brilharam. Corta meu cabelo?

Que fácil era essa cumplicidade, ter o sangue correndo a milhão e as mãos firmes. Sabendo o que fazia. Separou uma mecha do meio do cabelo, puxou para cima enquanto segurava a tesoura nos dentes. Estava dentro de um salão de beleza, dentro da novela, adulta, senhora do seu futuro. Cortou os fios pela base – e os soltou, sorrindo antecipadamente pela perfeição do serviço. Em vez de cair, os cabelos se abriram, ainda de pé, num ridículo leque. Espantada, Joana teve de pensar rápido: precisava se safar: ficou perfeito! Agora você precisa ir tomar banho pra se limpar…

Não havia como falhar, seu plano era perfeito. Ia se esgueirando gatuna pelas paredes, tinha entrado na cozinha e sua avó nem suspeitava. No meio do caminho começou a andar de quatro, comprometida com sua missão. Tudo corria como planejado, ninguém saberia, ninguém suspeitaria. Rodeou dona Maria silenciosamente – e ela não percebia! Sem conseguir respirar, foi levantando a mão que segurava a tesoura, mirando o bolso do avental. Ia conseguir! Alcançou o bolso, estava feito. Soltou a tesoura.

Então, antes de olhar para cima, sabia o que a esperava. Os olhos de sua vó a encaravam, firmes e gentis.

 

Despertou. O ônibus estava chegando na rodoviária. Como os meses voavam! Carregar as sacolas de fralda, a corrida no Uber, abrir a porta, guardar as sacolas. Um piscar de olhos.

 

O cansaço corria em arrepios, no entanto a mão seguia firme e gentil pelo tecido. Seus cortes eram precisos, não podia falhar. Precisava seguir o exemplo, continuar a tradição. Olhou para baixo e viu sua barriga a ponto de explodir. Sorriu, senhora do futuro. Agora era sua vez de expandir.

Caio Andreucciontem hoje [conto]

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