Olhares que regem o Cadê: 3 – Emmi Pikler

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foto do livro Abordagem Pikler – educação infantil, em que é retratado o cotidiano do Instituto Loczy

Este é o terceiro post sobre os olhares que regem nossa casa em todos os serviços que prestamos. A abordagem Pikler, como ficou conhecido o trabalho realizado por Emmi Pikler, é referência para creches, berçários e outras instituições que recebem crianças de 0 a 3 anos,

 

Assim como em Reggio Emilia, a contribuição de Emmi Pikler se dá no pós-guerra – igualmente, em um contexto marcado pela perda e o desamparo, também foi uma experiência voltada a garantir o desenvolvimento pleno das crianças. Pikler, nascida na Áustria em 1902, começa a atuar como pediatra na Húngria nos anos 1930, onde, anos mais tarde, realiza seu trabalho mais conhecido e importante. Em 1946, a pediatra assume a direção do Instituto Lóczy em Budapeste, instituição que acolhia crianças e bebês órfãos e desabrigados.

Antes da entrada de Pikler, embora os bebês não fossem privados de comida e água, de higiene e de momentos livres, era comum que sofressem de desnutrição, se recusassem a comer e acabassem, inclusive, a falecer. Quando a pediatra austríaca assumiu a instituição, ao constatar esse quadro, mudou-se a perspectiva do que era considerado como cuidado básico. Antes, entendido simplesmente como a alimentação, troca de fraldas e banho, realizado de maneira mecânica, esse cuidado prescindia de algo essencial (mas talvez impensável à época) para a sobrevivência e crescimento nessa faixa etária: o afeto no cuidado e o respeito pela individualidade.

Confrontada com a necessidade de alterações drásticas na rotina do Instituto, Pikler adotou uma abordagem que se mostrou altamente eficaz e que até hoje é referência em instituições voltadas ao cuidado de crianças na faixa etária de 0 a 3 anos. Nossa casa se inspirou fortemente na abordagem Pikler e a aplicamos no dia a dia. Podemos citar 5 princípios desta: reconhecimento e o respeito à individualidade dos bebês; valorização do vínculo entre cuidador (e/ou mãe/pai) e o bebê; promoção da autonomia através da liberdade de movimentos, do brincar livre; respeito ao tempo e espaço necessário ao desenvolvimento sadio; formação contínua dos cuidadores/educadores.

Uma das primeiras mudanças que a pediatra aplicou no Instituto foi a nomeação das crianças. Justamente para evitar o apego das cuidadoras, os bebês não possuíam nomes e eram referidos apenas por números. Entendendo a importância do nome como uma maneira de valorizar a existência do bebê e desenvolver sua noção de individualidade, Pikler fez com que os pequenos tivessem nomes próprios e fossem chamados apenas por estes. Junto a isso, os procedimentos para banho, troca e alimentação foram alterados. Dos atos mecânicos tratando o bebê como um objeto que se movia e chorava, passou-se a uma abordagem que considerava aquele um momento de vínculo, no qual o cuidador (ou mãe/pai) se relaciona com o pequeno. Mesmo sem a fala já é estabelecida um diálogo através de sinais não verbais, por parte do bebê, que estabelece contato visual e respostas através de gestos, relaxamento ou tensão a cada ação ou estímulo recebido. Ao adulto, cabia informar o que era feito durante os cuidados e convidar o bebê a participar tanto da interação quanto dos próprios atos do cuidar – esses movimentos do adulto, sempre buscando compreender as respostas e até onde a participação da criança é possível, estimulam sua autonomia. Ainda, os cuidadores deveriam sempre nomear as partes do corpo que tocavam, como uma maneira de colaborar na formação de sua imagem corporal e na compreensão e aquisição da fala.

Outra mudança na rotina dos bebês foi a instituição de um momento em que elas podiam se movimentar e brincar livremente. Para Pikler, toda atividade que é desejada e executada ativamente pelas crianças, tem consequências imediatas e a longo prazo muito mais enriquecedoras, em comparação com as atividades que são impostas e suportadas a contragosto. Permitir que as crianças brinquem e se movimentem livremente (é claro que o olhar e o contorno do adulto continuam presentes e são imprescindíveis para que isso se dê de forma segura) é essencial na educação das crianças: ao fazerem isso, seu desenvolvimento motor será mais harmonioso, respeitando as necessidades de cada etapa; também irá favorecer que experimentem situações novas por conta própria, e mais, desenvolvam sua capacidade pensar e solucionar criativamente essas situações. Criando um tempo na rotina que permitia a atividade livre, isso garantia o respeito ao tempo e espaço necessário para seu desenvolvimento sadio.

Além dessas mudanças, Emmi Pikler constatou a importância da formação contínua dos cuidadores/educadores. O estudo, aliado à reflexão cotidiana sobre o próprio trabalho, é uma prática imprescindível no cuidado a bebês. Nesse sentido, realizamos regularmente capacitações com nossa equipe de educadores e, cada um deles, voltados para suas áreas de interesse particulares, estão sempre buscando novas maneiras de melhorar e trazer mais ferramentas e conhecimento para o Cadê.

Caio AndreucciOlhares que regem o Cadê: 3 – Emmi Pikler

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