Olhares que regem o Cadê: 2 – Reggio Emilia

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foto da Namao School

Este é o segundo post sobre os olhares que regem nossa casa em todos os serviços que prestamos. A pedagogia da escuta, surgida em Reggio Emilia, é reconhecida mundialmente como uma das melhores e mais inovadoras.

O que é Reggio Emilia?

Reggio Emilia é o nome de uma cidade localizada ao norte da Itália. O estranhamento é comum, porque aqui no Brasil, geralmente usamos seu nome para nos referir a uma pedagogia específica – a pedagogia da escuta, desenvolvida e implantada primeiramente nessa cidade. O motivo de nomearmos o todo pela parte (a cidade pela pedagogia) não é claro, mas, coincidência ou não, dá um primeiro indício do que essa teoria defende: a educação não depende apenas da escola, dos alunos e professores, mas é um esforço que envolve a comunidade que a engloba.

Após o término da Segunda Guerra, com a cidade devastada, os cidadãos de Reggio Emilia, em vez de se lamentarem pelas perdas, resolveram olhar para o futuro: suas crianças. As mães, com o dinheiro da venda de um tanque alemão abandonado na cidade, fazem um esforço conjunto e constroem por conta própria a primeira escola da comunidade: Scuola Comunale del Infanzia – XXV Aprile (Escola Comunitária da Infância – 25 de Abril), em uma vila chamada Villa Cella, localizada a 8km da cidade. Hoje falecido, Loris Malaguzzi era então apenas um jovem pedagogo cheio de energia e ideias, que não se retraiu perante o desafio e colaborou não só na construção da escola, como ajudou a instituir um regime de autogestão comunitária da escola. Anos depois, seria um dos principais articuladores para que uma rede de creches e escolas, nos mesmos moldes pedagógicos e de autogestão da 25 de Abril, fossem implantadas em Reggio Emilia.

Hoje, a cidade tem por volta de 173 mil habitantes. As escolas inspiradas pela pedagogia da escuta são todas públicas e atende a aproximadamente 65% das crianças de 0 a 6 anos de idade. São, ao todo, 12 creches e 21 Escolas da Infância. O projeto de Reggio Emilia baseia-se em três pilares: a educação é um direito, a educação é de responsabilidade da comunidade, da sociedade civil e dos governos e a educação é um bem comum. E, justamente por basear-se nesses pilares, criou-se em 2011 a Fondazione Reggio Children-Centro Loris Malaguzzi, hoje em 34 países do mundo, promovendo e divulgando a proposta educativa de Reggio.

Mas o que têm de diferente as escolas de Reggio Emilia? O que elas nos ensinam? Quais seus princípios?

Uma das principais características dessa pedagogia é a crença na capacidade das crianças de se expressarem por meio de múltipas linguagens. Há um poema feito por Malaguzzi intitulado “As Cem Linguagens da Criança (leia na íntegra ao fim do post), em que é afirmado que as crianças possuem “cem mãos/ cem pensamentos/ cem modos de pensar/ de jogar e de falar.// Cem, sempre cem/ modos de escutar/ de maravilhar e de amar.”, mas que “roubaram-lhe noventa e nove./ A escola e a cultura/ lhe separam a cabeça do corpo./ Dizem-lhe:/ de pensar sem as mãos/ de fazer sem a cabeça/ de escutar e de não falar/ de compreender sem alegrias/ de amar e de maravilhar-se/ só na Páscoa e no Natal.

Nas escolas de Reggio Emilia as crianças são incentivadas a se expressarem através do desenho, do canto, da dança, da pintura, da interpretação, da escrita e da fala, sem ênfase ou valorização de nenhuma delas sobre as outras: todas as linguagens são meios válidos e essenciais para a criança compartilhar seus conhecimentos e saberes, sua criatividade e imaginação. Acredita-se que a multiplicidade das linguagens no ensino colabora para a formação dessas crianças. Ainda nesse sentido, o registro das atividades e do cotidiano, feito por crianças e adultos, é considerado primordial para o ensino: anotar, fotografar, gravar e filmar são partes principais da rotina, uma vez que dão concretude ao processo de aprendizagem.

Uma segunda característica essencial é ausência de divisão formal entre as disciplinas escolares. O ensino em Reggio é realizado através de projetos que englobam todas as áreas do conhecimento e nos quais todas as partes envolvidas (pais, alunos e professores) tomam parte. Geralmente, os projetos têm a duração do semestre escolar e são decididos em conjunto entre professores e alunos.

Essa segunda característica se liga à terceira: a interação entre adulto e criança não é feita como estamos acostumados – o professor no púlpito e os alunos atentos apenas absorvendo seu conhecimento – mas feita nos moldes de uma parceria. Reconhecendo a criança como um ser pleno, com autonomia, capacidade de julgar e tomar decisões, nas escolas de Reggio o adulto se torna co-autor dos projetos e do conhecimento elaborado pelas crianças. Também, essa pedagogia acredita que as crianças aprendem pelas experiências e nas experiências da ação e do fazer – em vez de serem receptáculos vazios para o conhecimento, é através de sua própria pesquisa e experimentos que elas poderão incorporar saberes que lhe serão úteis e valiosos ao longo da vida.

O essencial da pedagogia aplicada nas escolas de Reggio Emilia está inscrito em seu nome: escuta. É essa crença de que a criança pode ter conhecimento do que é melhor para si própria. Acreditando nisso, o papel do adulto se resume a apresentar as escolhas para ela de maneira apropriada – tomando cuidado para não direcionar a escolha da criança de maneira a favorecer o desejo do adulto –, ou seja, criar os contextos mais apropriados para que as crianças se sintam confiantes, confortáveis, estimuladas e respeitadas no seu processo cognitivo de descoberta do mundo.

A pedagogia da escuta é um dos pilares do Cadê Bebê e, além de acreditarmos, podemos observar no dia a dia como a confiança na autonomia da criança e do bebê levam eles a se desenvolverem de maneira plena. Os registros do cotidiano, importantes para os pequenos, também são valiosos para nossa equipe e para os pais, que podem acompanhar o crescimento, descobrir erros e acertos, e valorizar as experiências vividas em grupo.

Venha conhecer nossa casa, nossa proposta pedagógica, e saber mais também sobre nosso Centro Educacional para crianças de 10 meses a 3 anos!

poema de Loris Malaguzzi

AS CEM LINGUAGENS DA CRIANÇA
A criança
é feita de cem.
A criança tem cem mãos
cem pensamentos
cem modos de pensar
de jogar e de falar.
Cem, sempre cem
modos de escutar
de maravilhar e de amar.
Cem alegrias
para cantar e compreender.
Cem mundos
para descobrir.
Cem mundos
para inventar.
Cem mundos
para sonhar.
A criança tem
cem linguagens
(e depois cem, cem, cem)
mas roubaram-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura
lhe separam a cabeça do corpo.
Dizem-lhe:
de pensar sem as mãos
de fazer sem a cabeça
de escutar e de não falar
de compreender sem alegrias
de amar e de maravilhar-se
só na Páscoa e no Natal.
Dizem-lhe:
de descobrir um mundo que já existe
e de cem roubaram-lhe noventa e nove.
Dizem-lhe:
que o jogo e o trabalho
a realidade e a fantasia
a ciência e a imaginação
o céu e a terra
a razão e o sonho
são coisas
que não estão juntas.
Dizem-lhe enfim:
que as cem não existem.
A criança diz:
Ao contrário, as cem existem.
Caio AndreucciOlhares que regem o Cadê: 2 – Reggio Emilia

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