Olhares que regem o Cadê: 1 – Maison Verte

Maison Verte em Niort, França

Esse é o primeiro de três posts que falará um pouco dos olhares que regem nossa casa em todos os serviços que prestamos. A Maison Verte de Françoise Dolto guia nossos educadores no dia a dia e continuará guiando em todas nossas ações. Saiba mais!

Hoje conhecida como estrutura Dolto, a primeira Maison Verte foi inaugurada no ano de 1979 em Paris, para logo depois se espalhar pelo resto da França e outros países, se consolidando como uma grande referência nas questões da primeira infância.

A psicanalista francesa Françoise Dolto, alarmada com a quantidade de crianças que, apenas na pré-escola, já eram encaminhadas para tratamentos psicológicos, concebeu a Maison Verte. Voltada para o acolhimento de famílias, com pequenos de 0 a 3 anos e acompanhadas de um adulto de referência, a ideia era de que frequentar a casa fosse uma forma de prevenção contra problemas psicológicos. No entanto, não há nada menos parecido com um escritório psicanalítico do que uma Maison Verte – que aliás, traduzido para o português significa Casa Verde. A estrutura foi pensada, assim como o Cadê Bebê, para ser um espaço de convívio, de brincar e de falar.

Para Dolto, a fala, a palavra, e a escuta são tão importantes para as crianças quanto para nós adultos. Segundo a psicanalista, “tudo na criança é linguagem”, e embora bebês não possuam desenvoltura suficiente para falar tudo o que sentem ou querem, são capazes de compreender o que lhes é dito, assim como encontram meios de expressar o que sentem necessário. Pensando no objetivo inicial do projeto, podemos pensar no quê a palavra tem a ver com a questões psicológicas na primeira infância. Dolto diz: “se as coisas pudessem ter sido faladas a tempo, a saber, no momento dos traumatismos, dos choques, dos sofrimentos familiares dos quais a criança é parte integrante, e dos quais ela guarda um traço (…), teria sido possível evitar a grande patologia que aparece após dois anos de escolaridade”.

Os espaços de acolhimento inspirados pela Maison Verte permitem, tanto à criança quanto ao adulto, que possamos “colocar concretamente os fatos como eles são, ao invés de deixar o imaginário fazer espuma, espuma vazia mas que pouco a pouco se transforma em angústia”. Isso seria possível por algumas razões. Uma, é o fato de que nesses espaços a criança não é ignorada como um ponto morto da comunicação, que não ouve nem fala, mas é sempre incluída nas conversas. Tudo que é dito sobre a criança pode e deve ser dito a ela, tudo que lhe diz respeito também (como demonstra um caso relatado, em que a criança, em um contexto familiar carregado de tensão, se recusava a comer – até que Dolto lhe explicou, como o faria a um adulto, a situação). Nas palavras de Dolto, a “criança intui a comunicação que lhe fazem. Ela é reconhecida como um ser humano na linguagem, pois o ser humano, já na infância, está na linguagem, completamente.”. E, por isso, não faria sentido que lhe negássemos a comunicação que nos é tão cara enquanto seres humanos.

Como psicanalista, ela observava que não havia diferença fundamental entre adultos e crianças quando vinham às suas sessões. Havia, é claro, diferenças nos modos de se expressarem – para a criança é muito mais fácil se exprimir através de um desenho do que por meio de uma narrativa – e diferenças no que expressavam. No entanto, Dolto atribuía o mesmo tratamento a ambos, acreditando que, tanto quanto um adulto, a criança deveria receber o mesmo respeito e não ser levada pela mão, mas ser tratada da mesma maneira e traçar seu próprio caminho – igual aos mais velhos. Para Françoise Dolto os dois estão em pé de igualdade. Daí a importância de um espaço que dê oportunidades para a criança se fazer ouvir, seja através de desenhos, de bonecos, ou mesmo de outros adultos que estejam abertos a escutá-la.

A capacidade, assim como o direito, da criança de se comunicar, de ouvir e de se fazer ouvida, é algo que levamos muito a sério aqui no Cadê Bebê. Também vamos contra a ideia, corriqueira e perigosa, de que os pequenos são uma “tábula rasa”, na qual nós devemos inscrever nosso conhecimento social para que se tornem cidadãos. A prática que Françoise Dolto instituiu nas Maison Verte é essencial na formação da nossa casa não só por permitir a fala e a participação das crianças nas questões familiares, mas também pelo acolhimento da família como um todo.

A estrutura criada por Dolto ainda guarda importantes diferenças da nossa casa. Para dizer algumas, na França, a Maison Verte rapidamente se tornou uma instituição pública, e pode ser acessada por qualquer um que desejar. Lá, só são permitidas crianças até 3 anos e, sob nenhuma circunstância, elas podem ir desacompanhadas de um adulto de referência – nem mesmo irmãos um pouco mais velhos.

Nossa realidade não é a mesma e o Cadê Bebê não é na França. Infelizmente, ainda não podemos receber todos que gostaríamos, mas tentamos sempre nos adaptar para que possamos acolher nossas famílias conforme as necessidades que elas apresentam. Pensado com muito carinho e qualidade, todos os nossos projetos mostram nosso comprometimento com a primeira infância.

Espero que tenham gostado desse primeiro post! Estamos abertos a quaisquer sugestões, dúvidas ou dicas!

Caio AndreucciOlhares que regem o Cadê: 1 – Maison Verte

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