O Pedido

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Você lembra da sua primeira paixão, ou daquele primeiro namoradinho(a)? Fernando Caldeira ouviu, em primeira mão, a história da primeira namorada de Chico e nos conta de forma divertida. Confira!

 “Era estranho. Novo. Chico nunca tinha ouvido um pedido daquele. Até ficou tentando lembrar se alguma vez já tinha ouvido algo tão esdrúxulo assim. A conclusão foi que, no auge dos seus oito anos, já tinha atendido à pedidos bem estranhos, a maioria vindos de sua mãe: ela pedia para arrumar a cama, ato que Chico julgava totalmente desnecessário, visto que ia ser desarrumada a noite; a insistência de comer brócolis, uma comida detestável e que, como ele descobriu mais tare, não dava super-poderes nenhum. E o seu pai, então, que quando observava a mãe se irritando, dizia ao menino que ele tinha de ser compreensivo e cuidar da mãe. “Ora! são as mães que cuidam  e tem paciência com os filhos, e não os filhos que tem que cuidar da mães!“, pensava.

Mas, de qualquer forma,  os pedidos estranhos dos pais ainda não superavam a esquisitice da Marina. Bem da verdade, é que tudo virou novidade desde o dia em que ele decidira pedi-la em namoro. Era uma cabulação tamanha que, por um momento, achou que tinha problemas na garganta.

– Ma..ma..ma…

-Oi, Chico!

– Ma… ma…

– Tudo bem com você?

– ta… ta…

– Você é engraçado, sabe.

– obri…..ga..ga…ga..

– posso te chamar de Francisco? Acho mais elegante, parece nome de ator.

– ló….ló..gi…

– sabe, Francisco… eu acho que você podia ser meu namorado.

E antes que Chico pudesse responder, Marina já tinha dado as costas e saltitava pela quadra. O menino ficou ali, paralisado, com aquela palavra imensa: “NAMORADO”. Namorado. De agora  em diante, ele era Chico, ou melhor, Francisco (como a namorada gostava),  Francisco, o namorado da Marina do F1 da manhã. Isso; era dessa forma que iam olhá-lo agora na escola, e que ele poderia certamente se gabar.

E, então, ele se perguntou: mas o que um namorado faz? O que isso mudava na sua vida? Além das palavras “namorado” e “namorada” recém adquiridas no repertório para falar de si próprio,  nada de novo parecia ter mudado naquele seu mundo, cheio de joelhos ralados, brincadeiras com pé descalços e impregnado por um enfado por qualquer tipo de higiene. E, no entanto, todas suas preocupações se voltavam naquele instante, inevitavelmente, para esse novo mistério que se chama “relacionamento”.

(Não, não foi esse o estranho pedido da Marina. Já chegamos lá..)

Ele sempre ouvira falar dos namorados. Pela boca dos adultos, principalmente. Até sua tia Bebel, que todos diziam “ter apenas 17 anos” ( o Chico achava essa uma idade bem avançada), tinha um namorado. Era um cara de piercing no nariz, cabelo bagunçado, que quis lhe mostrar bandas de rock nos almoços de família de domingo. Quando o casal ia embora, começava uma falação geral na casa do vovô, criticando os dois adolescentes, e ele tinha que pedir calma pra todos, – “deixa eles. São apenas crianças.” abrandava o velho.

Chico refletia. Será que ser namorado significava virar  alguém irritante para uma família ? Será que com 17 anos ele ainda seria criança como a Bebel? Com que idade pode ele poderia colocar piercing no nariz?

Entre tantas reflexões naquele dia, nada mudou. Bem, da verdade, ele havia mudado de idéia e resolveu guardar para si a notícia do novo namoro. Optou por manter em segredo. Talvez tivesse que falar antes com a Marina, decidir com ela – como namorados! -se contariam ao mundo o amor deles (será que o que ele sentia era amor?). Além disso, talvez não aprovassem aquele relacionamento, e quem sabe, isso irritasse os pais e o casal fosse proibido de se ver. Que tragédia! E que romântico! Seria uma história de amor proibido, como Romeu e Julieta, como Bebel e o cara do piercing! É isso: guardaria o segredo.

Provavelmente, a Marina pensou a mesma coisa. Não havia contado a ninguém do namoro. E, talvez para disfarçar ainda mais, no dia seguinte, inclusive, nem conversou com Chico. E este, como bom namorado, entendeu o recatamento e discrição da sua pequena donzela. “É para o nosso bem. Nós temos um amor secreto e proibido”, sussurava para si mesmo. E aquela ideia ficou tão fixa na cabeça do menino, que começou a brotar nele aquela paixão inocente e fantasiosa que as crianças podem carregar por outra criança.

A paixão, no entanto, está muito mais próxima do mundo dos sonhos do que do mundo real. E mesmo que Chico e Marina não se conversassem por dias, Chico sonhava. E nas miudezas de seus segredos, era senhor de suas paixões. Se sentia grande apenas por sentir, por ter conseguido se apaixonar. Os outros meninos, ele pensava: que tontos! só queriam saber de jogar bola. Coisa de gente grande mesmo é se apaixonar! E isso bastava, naquele momento, embora o menino não percebesse.

E, então, se aproximou o Dia Dos Namorados. Marina finalmente se aproximou dele e fez o tal do estranho pedido.

Ao retornar para casa naquele dia, Chico resolveu contar à mãe sobre o namoro. A mãe apertou o coração e as lágrimas.

– E agora, mãe, preciso de uma ajuda sua.

-Que tipo de ajuda, filho?

– A Marina me pediu um presente de Dia dos Namorados.

– Uau! Sério? – a mãe estava realmente surpresa- .. e você sabe o que ela ia gostar de ganhar?

-Sim. Ela me contou o que ela quer . Um prédio.

– Quê? Como assim? Um prédio de montar?

-Não, mãe. Um prédio de verdade!

A mãe, já possuída da sabedoria dos adultos, caiu na gargalhada. Chico estava em pânico. Como iria atender aos pedidos da amada? Passou as noites em claro e se recolhia mais cedo do jantar: queria ficar no quarto. Lá dentro –  a mãe espiava – Chico desenhava prédios no caderno, incansavelmente, imaginando no prédio que tinha de dar à namorada. E a mãe, decidiu que aquela paixãozinha de crianças tava ficando perigosa e resolveu conversar com o filho.

Não, Chico, não era possível comprar um prédio para a Marina. Sim, ele sabia. Mas como explicar para a namorada? Namoros são muito complicados, nossa! Como a mãe e o pai conseguiam? Ah, é uma luta todo santo dia, meu filho!

-Acho melhor terminar o namoro, mãe..

Chico chorou quietinho. No dia seguinte, ela falou para a Marina que não podiam namorar mais. A menina fechou a cara e pisou no pé dele. No fim, desabafou com seu amigo:

– Sabe, Dani.. pensando agora, acho que nunca ia dar certo entre eu e a Marina. Ela é muito imatura! Não é que nem eu. Quem já viu? Pedir  um prédio de Dia dos Namorados! Pff! Olha eu: só pedi um carro zero!

 

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