O escritor e a babá

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Eram umas dez da manhã, de uma quarta-feira, Praça Buenos Aires, Higienópolis. Dona Selma estava sentada num banco, vestida em seu amarrotado uniforme branco, o mesmo que lhe apertava há décadas. Observava o Samy brincando na areia e, por vezes, gritava pro menino: “tá tudo bem! não foi nada! não precisa chorar“, “uau! que legal!“, “Que lindo, meu amor!“.

Até que um estranho lhe interrompeu:

 – Nossa, que calor hoje, hein!

– Calor?!?!  Aff!!  Hoje eu saí de casa com duas blusas!

– .. é verdade… Também saí  de duas blusas….

-Ixi! Então, vai me desculpar, mas acho que o senhor acordou sem bater bem da cabeça, não.

– Bom… É que bem da verdade, eu só queria puxar papo com a senhora…

Dona Selma estranhou. Mediu o rapaz de cima a baixo: tinha a idade para ser, no mínimo, seu filho. Usava óculos, a barba estava por fazer ( o que lhe pareceu sinal de desleixo) e suas roupas indicavam que não devia ser ruim de vida. Coisa boa não era, concluiu.

 – Bater papo??!! Comigo?? Xiii, lá vem… Que que você quer?

– Então , é que certa vez o Machado de Assis – que era também famoso cronista, e não só contista e romancista, como muitos ignoram – mas, enfim,  ele uma vez escreveu que num comentário simples como esse : ” Ufa! Que calor!” era já a origem de uma crônica e assim…

– Olha, meu filho, peralá, acho que dá pra ver que eu não sou pessoa de estudo, né? Então guarda esse machado aí pra você, que agora eu tô trabalhando! E não tô pra conversa fiada!

O rapaz ficou constrangido e começou à procurar as palavras.

 – Er….desculpa, eu vou ser direto com você… primeiro , qual o seu nome?

– Selma Bárbara Azevedo de Lins Sousa. – respondeu, de braços fechados.

-Bom, .. meu nome é Fernando… Prazer ! – e estendeu à mão.

Apertaram as mãos, mas ela , ainda de cara amarrada.

–  Selma…Dona Selma,.. vou lhe explicar direitinho. Eu sou escritor, me formei há dois anos lá na USP…

-Meu filho, não tô interessada no seu currículo. Desembucha, que já tô sem paciência!

-Tá bom, tá bom. É  que me pediram para escrever textos-  crônicas, para ser específico – sobre a infância…. e, a verdade é que eu não sei nada sobre o assunto!

-Ué! Mas se não sabe nada, como é que te chamaram para falar??

-Por que eu deveria saber , talvez. Pois minha especialização é Literatura Infantil, ..livros pra crianças. Mas eu sei tudo sobre os livros, e nada sobre crianças! Aliás, eu nem convivo com nenhuma desde o colégio…Só consegui esse emprego por que o João era meu amigo do colégio..

-Xi, meu filho, então você tá lascado…

-Não!! Pois , então , é aí que entra você, Dona Selma !!

-Ih, eu não entro em lugar nenhum não, meu filho!

– Mas, Dona Selma, a senhora é babá! Fiquei observando você, de longe, e vi que esse menino é tão apegado à você e você à ele, que eu pensei que.. Olha, o seu trabalho é cuidar, brincar e conviver com uma criança todo dia , o dia todo! E, provavelmente , a senhora deve fazer isso há muuuitos anos ..Bom, o meu ponto é que ninguém deve saber mais sobre criança que você!

 – Mas o meu cuidar é natural, meu filho, não tem saber.  Já te falei que não tenho formação, nem no ensino médio cheguei. Só cheguei aqui por que na minha família, lá em Potirendaba, todo mundo cuidava de todo mundo, era assim que funcionava, senão não funcionava! Os irmãos mais velhos cuidavam dos mais novos, os mais novos depois cuidavam dos netos, e por assim vai..

– E o seus pais?

– Ah, eles tinham que cuidar das vacas, ué!

-Ahn…

 A dona Selma, então, enxergou, naquele estranho um ouvinte interessado e deslanchou em contar toda a sua história. Só parava de vez em quando, para olhar e brincar com o pequeno Samy, um menino de cabelo loiro, loiro, que tanto contrastava com sua pele negra e marcada.  Percebia-se claramente que os dois, criança e babá, mesmo vindo de lugares tão diferentes, famílias diferentes, se amavam e confiavam cegamente.  Samy brincava sorridente , pois sabia que a sua babá estava ali , fornecendo segurança e afeto. Era uma forte amizade – alheia às questões sociais, de classe, de idade, de raça, de gênero – estavam ali um para o outro, exclusivamente.

Naquele dia, Dona Selma só falou de si mesma e não qui ensinar nada sobre a infância e sobre sua experiência, pois insistia que não era doutora para falar sobre isso. Só que, no fim, com a história da Dona Selma e do pequeno Samy, é que tive os meus primeiros aprendizados sobre como é cuidar de um criança. E decidi que poderia , sim,  escrever para o Cadê algumas crônicas sobre o universo cheio de afetos que constitui a infância.

Ah, sim! O Fernando sou eu.

Fernando Caldeira, 27 anos, é escritor e mestrando em Literatura Infantil na UNESP. À convite do Cadê , escreverá mensalmente crônicas sobre os mais diversos assuntos relacionados ao universo da infância. 

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