Momento Retrô: Como cresceram os Atores-mirins que Adoramos?

A maioria de nós passou a infância entre historias de crianças que passavam por problemas parecidos com os nossos, sonhos e travessuras parecidas, e cheios de dúvidas sobre o mundo adulto e de si mesmos. Acompanhar as vidas desses personagens infantis no cinema ou na televisão, com certeza, foi importante não só para as nossas memórias, como também são ingrediente especial do caldeirão cultural que vai construindo e desconstruindo o papel da criança ao longo do tempo nas sociedades.

Pela nostalgia e por seu valor para as nossas infâncias, o Momento Retrô dessa semana traz a curiosidade de vermos imagens de alguns desse atores-mirins, que tanto nos identificamos quando pequenos, que agora são adultos.

No entanto, uma noticia que circulou na internet  recentemente nos lembrou que sempre há dois lados da moeda. Ao sabermos que o ator Jake Lloyd, o pequeno Anakin Skywalker em Star Wars:Episódio I, foi preso e está sendo encaminhado para tratamento psiquiátrico, cai sobre nós uma amarga pergunta: será que para esses atores-mirins a experiência de atuar e de ter seu rosto conhecido também foi boa para eles ?

Jake Lloyd ficou famoso por interpretar Anakin Skywalker em "Star Wars: A Ameaça Fantasma"

No caso do próprio Lloyd , a experiência de atuar foi horrível , segundo declarações do próprio. Temos também a polêmica história de Macaulay Caulkin, da trilogia “Esqueceram de Mim”, que circulou pelos tablóides, devido o seu envolvimento com drogas e brigas com os pais. Podemos facilmente lembrar de outras crianças-celebridades que se tornaram adultos-problema. No entanto, não devemos tomar esses casos como regra. Nada é preto no branco. Há muitos atores-mirins para quem a vivência de adentrar o mundo das telas não foi necessariamente um problema e seguem suas vidas normalmente, muitas vezes ainda como atores. Então , qual o limite ? Quando a decisão de tornar a criança um ator-mirim pode ser nociva ao emocional desses futuros adultos e quando ela pode se tornar um elemento fundamental para construir sua identidade ?

Bom, agora é fundamental também irmos ao outro lado da moeda – que hoje está cheia de lados, pelo visto. Atores-mirins não decidiram ser atores. O desejo pode ter sido deles (ou não) , mas a decisão final foi e é dos pais. Eles que devem avaliar se o filho terá a maturidade emocional para passar pelo intenso processo emocional das gravações e de sua posterior repercussão.  E não é só a criança que deve estar preparada, talvez até mais fundamental ainda seja que a família esteja preparada para tal empreitada.

Existe outro lado (sim, outro) de que se decida não ir, e seu motivo não é a falta de maturidade , mas simplesmente por que não precisamos atender aos apelos da sedução da fama. Pois o ambiente de gravações é um ambiente de trabalho, com colegas de trabalho e pode passar em muitos momentos por situações inapropriadas para criança. Sendo direto, a criança está no mundo do trabalho, está trabalhando.

O filme “Pequena Miss Sunshine” ilustra bem as fantasias e projeções dos adultos em torno das crianças, numa busca desesperada em torna-las objeto de desejo deles próprios.  E por isso devemos pesar bem os lados e refletir se o ingresso precoce na carreira artística deve-se à vontade e vontade de outros ou se é , de fato, interessante para esses pequenos atuarem.

O Cadê foi atrás de alguém que passou por esse dilema: Isabel Reis, a mãe de Francisco de 7 anos, recebeu o convite para o filho ser protagonista de um longa-metragem de renomado diretor. O convite implicava passar 3 meses de gravação no Nordeste (e também 3 meses sem escola e trabalho para pai ou mãe). Ela nos mandou esse lindo e sincero relato:

Ter filho é coisa. Parece que é o tempo todo olhar para si e questionar a própria alma. Tenho vivido tantos momentos desses há pouco mais de 7 anos… em que preciso tomar decisões sobre a vida do meu filho, caminhos possíveis para ele, e quanto mais eu cavoco e transpiro para encontrar uma resposta, mais me deparo com minha vaidade, meu orgulho, carência, apego. Recentemente Francisco foi chamado para um teste de elenco em que ele seria o filho do protagonista de um filme. Meu primeiro respiro foi aquele de estufar o peito. Claro que fiquei embebecida de orgulho, ainda que não tivesse esse sentimento consciente. Pensando sobre essa possibilidade fui logo dando justificativas: como seria incrível essa experiência, como ele poderia descobrir algo apaixonante, valioso, arrebatador, que transformaria sua vida para sempre!!!

Tudo parecia bem, até que chegou a hora de deitar e fiquei (quase) sem dormir fritando meu cérebro. Mesmo. Porque meu filho tem 7 anos, é um menino lindo, interessado, conversadeiro, que se jogaria nessa aventura, certamente sim. Mas a noite continuava existindo e eu continuava fritando o cérebro a ponto de pensar o que isso significava para mim, e não mais ficar hipotetizando o que poderia significar para ele.

Então chego em mim, me observando em cada sensação, até que inflo um respiro que não se estufa mais como antes, e sim tranquiliza­sse sobre minhas costelas. Não, meu filho não vai fazer esse teste não. Isso não é porque eu seja uma mãe temerosa, com medo de deixar meu filhote bater suas próprias asas, mas sim porque a concretude do convite realizou­se: levá­lo ao teste seria levá-­lo ao trabalho.

É claro que pode parecer exagero, para alguns pode parecer até negligencia, como se eu o estivesse privando de algo espetacular, afinal de contas Chico poderia se divertir muito, conhecer novos mundos, abrir horizontes…

Mas o contrário também poderia ser real, algo que fosse extremamente cansativo, puxado,desgastante. Ele não poderia desistir da brincadeira no meio, não poderia escolher como fazer, conviveria meses com pessoas que poderia não gostar. Sendo chamado para filmar num momento de total desinteresse, por exemplo, meu menino teria de arcar com a escolha que fizemos, eu e seu pai, em prol de que mesmo?

Agradeci aos céus após essa luz, que me clareou o refrão: criança não trabalha, criança dá trabalho, como já ensina a música. Agradeci também pela lucidez de que meu orgulho e felicidade incontroláveis em ver Francisco no telão serão muito mais grandiosos se ele, quem sabe um dia, escolher esse caminho sozinho, sem precisar do consentimento de ninguém, e tiver total consciência de todas as responsabilidades que tal escolha abarcar.

Porque ser criança é brincar e ter muito, muito tempo para fazer nada.”

 O Cadê não pretende dar resposta à essa longa polêmica. Queremos promover a reflexão e discussão sobre o assunto. Cada um terá sua resposta. Isabel, através de um profundo processo, achou a sua. E você?

Até a próxima!

 

 

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