Mas Por Quê? Parte 1

 

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A HISTÓRIA DOS GRAMINHAS

Uma vez minha vovó me contou uma história e essa história me marcou tanto, que agora conto agora para vocês…

“Meus queridos netinhos…”, disse ela, com voz doce, enquanto sentava com certa dificuldade na poltrona cheia de almofadas coloridas; o chá da tarde fazia fumaça em suas mãos e o gosto com que ela contava as peripécias de sua infância, sempre nos enchia de orgulho e afeto. Pedro, João, Yasmim e eu corremos rapidamente, disputando o lugar mais perto. Sentamos em um tapete felpudo e quentinho que ficava pertinho da poltrona. Era tão gostoso que queríamos passar horas e horas sentados ouvindo e sonhando acordados!

Vou lhes contar uma história …”

Ela nos contou sobre a construção de uma cidade que hoje todo mundo conhece – Brasília! Foi no momento em que se decidiu que o Rio de Janeiro não seria mais a capital do nosso país, e daí resolveram construir uma cidade inteirinha e para isso, contrataram inúmeros trabalhadores. Eu sempre ficava muito feliz de ouvir as histórias de vovó! Ela nos disse: “quando o bisavô de vocês foi convidado para construir aquele mundaréu, eu tinha apenas 6 anos de idade, era pequenina e fofinha, como vocês! Meu pai trabalhava noite e dia, dia e noite, quase sem fim fazendo os projetos que pra aqueles prédios grandiosos.

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“Meu pai era o melhor engenheiro do Brasil. Minha mãe fazia quentinha para vender no horário do almoço e levava pros rapazes da obra… sabe, minha filha, – dizia ela – era uma comidinha tão gostosa, mas tão gostosa que eu quase que sinto o gosto. Mamãe trabalhava muito também! Para mim, a vida era uma delícia, cresci com muitos amigos e amigas, todos íamos para a mesma escola – era uma escola que eles tinham feito só pra gente! Antes não tinha nada… era uma cidade vazia, vazia. Brincávamos muito e vivíamos fazendo peraltices! Bons tempos aqueles! – recordou minha vó, saudosista.

“Naquela época, meus pais estavam bem felizes e satisfeitos…é que a vida na roça era um bocado difícil, viu, crianças. Fui crescendo e aprendendo um montão de coisas. Íamos crescendo junto com a cidade, com as árvores que a gente ajudava plantar… era muito gostoso. Tinha espaços enormes e a gente adorava correr por entre os vãos dos pilares. Brincávamos de tudo: pega-pega, esconde-esconde, pula corda, amarelinha, futebol, e a gente também inventava as brincadeiras: corre-cotia nasceu dali, naquela época! Mas o tempo foi passando e as coisas foram mudando… – nessa hora vovó mudou o tom de voz, já sabíamos que algo estava por vir – de repente notei que alguma coisa estava esquisita, bem esquisita e que era por causa da “ditadura”. Ela contou que as pessoas não podiam mais ficar conversando nas calçadas recém-criadas da cidade, parecia até que tinha uma lista do que era proibido falar.

“Tiveram até pessoas que sumiram e a gente nunca mais viu, como o nosso amigo Zeca, da quadra norte. Nessa época eu já tinha 13 anos. E um dia fui brincar de bola com meus amigos que moravam nas redondezas e eles me falaram pra tomar muito cuidado com os Graminhas”

“E eu me perguntava: “Graminhas? Que raios que é isso?” Daí, um dia eu descobri da pior maneira possível! Eram os guardas que ficavam vigiando as pessoas e eram responsáveis por preservar o crescimento das gramas… por causa disso os meninos apelidaram eles como Graminhas.”

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“Nunca entendi muito bem o motivo desses guardas serem tão bravos com a gente. Sempre que um deles nos via brincando, corriam atrás da gente e, quem não conseguia fugir, recebia uns bons beliscões, safanões, apertões! Era muito ruim… nosso braço ficava todo roxo. Não era para educar, era pra brigar mesmo! E então, eles, orgulhosos da tal “conquista” nos levavam até em casa, conversavam com nossos pais e ainda dava uma tremenda bronca! Reclamavam dos nossos barulhos, das nossas brincadeiras, como se estivéssemos fazendo “coisas erradas”. Reclamavam que não podíamos brincar mais por ali…”

“Ué! Antes, a gente brincava naquele lugar, e não tinha nenhum problema… não dava pra entender!!! (vovó estava apontando o dedo para o alto e elevou a voz por um instante; acho que foi uma das poucas vezes que vi vovó exaltada). ” Aparentemente, nosso delito era, talvez.. quem sabe… prejudicar o crescimento das plantinhas, sei lá, com aquelas brincadeiras da infância, mas a gente ficava triste que só. Levava bronca à toa!” Nesse momento, vovó parou de falar e ficou quieta por um tempo, pensativa.

Eu nunca mais esqueci essa história que vovó contou, sempre me lembro e, às vezes, acho graça quando eu vejo que hoje em dia eu posso brincar e correr sem ter medo dos Graminhas! Mas, outras vezes, fico pensando na vovó fugindo dos Graminhas e morro de compaixão. Nunca me esqueci desse dia e da história da vovó! Tem histórias que ficam marcadas na gente, né? Por que será?

                                                                                      FIM

Juliana Flor e João Gabriel Andreucci são psicólogos com trajetórias voltadas para o universo da infância. Eles desenvolvem a série ” Mas por quê?”, exclusiva pro Cadê, com histórias, imagens e idéias para trazer a dimensão política para a esfera infantil e familiar e promover a discussão entre gerações. Buscam reafirmar a criança como cidadão ativo de nossa sociedade.

Ah, e a história dos Graminhas foi realmente uma história que contaram para a Juliana Flor. 

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