Eleições 2018: política na primeira infância

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Em época de eleições, muitas vezes me pergunto: é possível discutir política com crianças na primeira infância?

A eleição deste ano, em especial, que tem mobilizado tantos sentimentos controversos, fez com que eu me esforçasse para explorar esta questão. Comecei minha empreitada de maneira ousada e, perguntando a uma bebê de 1 ano e meio, toquei a questão central: qual a sua opinião sobre o Haddad? A criança, com seus grandes olhos, fez que não ouviu e, munida de um prato e talher, começou a me alimentar: papá? papá?

Claramente, escolhi um caminho inadequado ao ser tão direto. A questão é delicada, achei melhor abordá-la de outra maneira: você acha que seria melhor para o Brasil privatizar todas as empresas públicas? Mais uma vez fui ignorado, a pequena continuou: papá? papá?

Comecei a pensar, frustrado, que não é possível perguntar aos pequenos qual a opinião deles sobre o programa econômico de determinado(a) candidato(a), discutir suas agendas políticas ou mesmo conversar sobre a história recente desses partidos e candidatos(as). Mas aí aconteceu o inesperado. A avó da menina respondeu por ela: a gente precisa endireitar o país, né, Melzinha¹? Acabar com a roubalheira. Não vamos votar nele não, né, Melzinha?

A opção política específica da avó não me interessou na hora, mas me fez abrir os olhos para outra questão. Embora ela não advogasse nenhum(a) candidato(a) em sua fala, era possível identificar no discurso dela julgamentos de valor, claros como água, que não são necessariamente ligados a determinados nomes. “Precisamos endireitar o país” e “acabar com a roubalheira” são outras maneiras de dizer: escolhas moralmente incorretas têm sido tomadas no país; roubar é errado; temos que nos alinhar com o que é correto; não podemos incentivar ou defender pessoas que fazem o mal.

Isso me fez perceber duas coisas que, na euforia das discussões, parecemos acabar deixando de lado: primeiro, que transmitimos determinados valores às nossas crianças sem nos dar conta. “Roubar é errado” é uma lição óbvia e que retomaremos diversas vezes, mas será que percebemos todas as vezes em que reforçamos essa ideia? E mais, que outros valores passamos às nossas crianças sem perceber?

A segunda coisa que percebi foi que política vai para além das siglas dos partidos, dos programas de governo, dos alinhamentos políticos – política é algo que vivenciamos no cotidiano, que permeia nossas relações sociais, profissionais e familiares, que passa pelas nossas condições de vida, pelos direitos que adquirimos, pelas escolhas que fazemos (ou mesmo podemos fazer). Parece óbvio mas não é. Com essa política tão desligada do nosso cotidiano, só pensamos nos(as) candidatos(as) apenas de 2 em 2 anos e esquecemos que as escolhas que eles(as) fazem nos seus cargos terão impacto direto em nossa vida – e, se não na nossa, na de outras pessoas, outras famílias. E também, essas escolhas, se não têm efeito imediato, podem trazer bons ou maus frutos nos anos futuros, talvez impactando mais nossas crianças do que a nós mesmos².

Nesse sentido, podemos afirmar que, embora não possamos discutir a política partidária com bebês e crianças pequenas, nós estamos cotidianamente ensinando política aos pequenos. Entendendo isso, resolvi fazer uma pergunta diferente à Melzinha. Entre uma garfada e outra que ela me dava, perguntei: Melzinha, a gente pode bater em outra pessoa? A pequena fez uma cara de incrédula e achou melhor continuar a me dar papá. Insisti: Melzinha, a gente pode bater nos outros? Então, ela, com 1 ano e meio, com a fala ainda bem no comecinho, mas entendendo tudo que lhe é dito, estendeu sua mão para meu rosto como se me fizesse carinho, repetindo o que vejo sua avó lhe ensinar sempre: não pode bater, tem que fazer carinho no amigo.

Assim, independente da orientação política, sempre haverá valores que são (ou pelo menos deveriam ser) compartilhados por todas as pessoas. A recusa à violência, a valorização da educação e o respeito à diversidade (religiosa, social, racial e sexual) são alguns deles. Ou seja, nós não só conversamos sobre política diariamente com nossas crianças, como, ao transmitirmos nossos valores às crianças, estamos fazendo política, estamos preparando cidadãos para os tempos que virão.

Por último, é importante ressaltar que não é a intenção deste texto te dizer vote no(a) candidato(a) X, Y ou Z– nem de longe! A intenção é lembrar que política também se faz em casa. Que antes das urnas vêm nossas crianças. Que quando formos votar, devemos votar pensando no bem do futuro delas, assim como fazemos todo dia.

NOTAS

1 – Nome fictício

2 – Um exemplo disso é o caso do Museu Nacional, que incendiou recentemente. O incêndio pode ser visto como um acidente, como um caso isolado, porém, visto dessa maneira, deixamos de lado o fato de que museus devem estar preparados para evitar esse tipo de acidente. E para estarem preparados precisam de verbas voltadas para a conservação de seu acervo – verbas que devem vir do poder público³. No caso, a enxuta verba destinada para isso, por parte do governo, indica claramente o que é de seu interesse: uma reportagem demonstrou que no ano de 2017 o governou destinou mais verbas para cafezinho do que para o Museu Nacional (https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2018/09/04/governo-federal-gastou-em-2017-mais-com-cafezinho-do-que-com-museu-nacional.ghtml). Implicada na desvalorização do Museu está a falta de interesse dos governos na educação e na ciência. Esse descaso não é de ontem, mas vem de várias administrações e de vários partidos. Esse descaso, infelizmente, levou a uma irreparável perda para a ciência brasileira e mundial.

3 – Para alguns, esse caso só demonstra como o poder público é incapaz de cuidar da educação e da ciência e, portanto, essa tarefa deveria ser repassada à iniciativa privada. No entanto, embora não seja o objetivo deste texto discutir a privatização da educação, cabe ressaltar que, até o momento presente, a educação é um direito constitucional, e, como tal, cabe ao Estado garanti-la à toda população.

Caio AndreucciEleições 2018: política na primeira infância

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