Brincar pra quê? Pra que Brincar?

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Um movimento acontece. Nos últimos anos, em São Paulo, capital, tem crescido o número de brinquedotecas e espaços de brincar, especializados principalmente na primeira infância , com o Cadê entre elas. As escolas privadas* de educação infantil  tem revisto seus currículos e cada vez mais se preocupado em enfatizar o lúdico em seu discurso. Alem disso, projetos importantes como o Instituto Alana, Aliança pela Infância, Mapa da Infância Brasileira e até o recente “São Paulo Carinhosa” da prefeitura, entre outros,  tem atingido um público cada vez maior para levantar a bandeira pela infância. Em todos, há algo em comum: a valorização do brincar.

Isso não é maravilhoso?

É. Mas tem que ter mais.

Antes de tudo, esclareço que este texto não pretende lançar diagnósticos ou prognósticos sobre o momento atual da infância paulistana e brasileira. Nem sugerir alternativas aos caminhos em andamento. Vamos, sim, retomar um pouco do discurso recorrente que tem em comum à quase todas essas instituições ligadas ao cuidado e incentivo da primeira infância , o que acaba, naturalmente, gerando seu próprio mercado de ideologias, produtos especializados , redes, desejos e fantasias.

Concentraremo-nos num aspecto desse discurso: o brincar como fundamental a infância. Lindo, não? Um discurso desse parece difícil de se opor, ainda mais que rapidamente atinge à nós, adultos, através das memórias felizes que nós mesmos carregamos da infância. Queremos valorizar esses momentos, desejamos que nossos filhos passem pela mesmas alegrias que tivemos. Isso é pertinente. Certo?

À grosso modo, podemos dizer que as nossas lembranças de infância são  como um oceano, e poderíamos dizer que muitas delas – as mais densas, pesadas , obscuras  – ficam lá no fundo, bem difícil de se enxergar na maior parte do tempo (e assim desejamos, muitas vezes); e as mais alegres – a das brincadeiras, dos amigos, das descobertas, dos carinhos, afetos – ficam na superfície, onde queremos nos banhar e refrescar.

O que quero dizer, é que há um lado primordialmente afetivo dentro de nós que quer afirmar a brincadeira como forma  de preservar as nossas próprias lembranças e , assim, a nossa própria história. O brincar é , em geral, encarado como um momento de prazer, e por isso, entende-se que a busca por uma construção da infância permeada pelo brincar seria a busca por uma infância feliz e, logo, plena.

Bom, como aqui temos a tarefa de questionar, indagamos: se admitimos esse valor positivo do brincar podemos dessa forma garantir, consequentemente, que a brincadeira é fundamental, essencial ao desenvolvimento do ser humano? Se sim, em que ponto ela é fundamental e como?

Se, até agora, tentamos identificar os nossos próprios desejos e próprios fantasmas dentro desse discurso, convém também refletirmos sobre o lugar da onde vem esse pensamento da valorização do ato lúdico histórica e culturalmente. De acordo com o antropólogo francês Gilles Brougère, essa valorização vem do Romantismo, movimento que enxerga a criança próxima do poeta, como seres dotados da liberdade e espontaneidade para se expressar. Até então, o jogo e a brincadeira eram vistos apenas como um descanso para as “atividades sérias” – pensamento que ainda ressoa forte na nossa sociedade .  Não é à toa, então, que é da escola romântica o filósofo fundador do kindergaten ( o jardim-de-infancia), Friedrich Froebel. Segundo este, a criança deve :

“viver de acordo com sua natureza, tratada corretamente, e deixada livre, para use todo seu poder  (…) A criança precisa aprender cedo como encontrar por si mesma o centro de todos os seus poderes e membros, para agarrar e pegar com suas próprias mãos, andar com seus próprios pés, encontrar e observar com seus próprios olhos.”

Ora, não poderia soar nada mais próximo do que nós proclamamos aqui no Cadê (para dar um exemplo) com o brincar livre, certo? Bom, mas basta lembrar que estamos falando de um pensador do começo do século XIX e que até hoje muitas instituições educacionais ( e dessa vez , não incluo o Cadê, com louvor) , por mais que afirmem concordar com uma sentença dessas, a prática não segue a teoria. A professora Tizuko M. Kishimoto afirma que “ (…) relatos da prática pedagógica froebeliana emolduram um quadro mais próximo da coerção, de jardineiras comandando a conduta infantil a partir de orientações minuciosas, destinadas à aquisição de conteúdos escolares.“. Se você trocar na frase a  pedagogia froebeliana por pedagogia montessoriana, piagetiana,  sócio-construtivista e outras tantas mais, podemos perceber os mesmos equívocos. O que acontece, então?

Em plena Semana mundial do Brincar, estamos todos reafirmando, juntos, o valor da brincadeira para uma infância plena. O Cadê luta para que essa afirmação não se descole de seu cotidiano , que forme seus profissionais, que permeie as famílias que frequentam. Para isso o diálogo , a discussão e a reflexão se fazem primordiais para que nossas ações se tornem em palavras vazias. Convidamos todos para participar desse debate, seja através dos filmes que passamos, de uma conversa com um brincadê, ou em qualquer momento da semana ou do ano. Afinal, não há ninguém que não possa falar sobre o brincar – o brincar é universal.

E, então, brincar é importante por quê?

Até a próxima!

34 fotografias mágicas de crianças brincando pelo mundo 14

Referência bibliográfica:

 . “o brincar e suas teorias” – Tizuko Morchida Kishimoto

* não me sinto suficientemente referenciado para falar sobre a rede pública, por isso não a inclui no texto.

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