Boas Intenções

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Mais uma divertida crônica de Fernando Caldeira, que ao desenhar um mundo onde as crianças intimidam os adultos e os adultos se desesperam pela aprovação delas, podemos nos perguntar: isso tem alguma coisa a ver com a nossa realidade?

Boa Leitura!

Olavo não ficava assim tão nervoso há anos. Ah!  Quem ele estava enganando? Não se sentia nervoso assim há décadas! De frente ao espelho do banheiro, o homem de meia-idade brigava para endireitar  a gravata por vinte minutos, suando em baldes.  Na noite anterior teve insônia, acabou por levantar cedo da cama, passou horas escolhendo a roupa que usaria,  fez a barba com o maior perfeccionismo de sua vida, usou a loção pós-barba que guardava para ocasiões especiais e tirou o pó do blazer que vestiu somente na bodas de ouro dos pais.

-Vamos, Olavo! Assim a gente vai se atrasar! – gritou a esposa do andar de baixo da casa.

A mulher, também nervosa, rodeava a sala, batendo o salto alto. De vestido apertado e maquiagem carregada, sua aparência surgia como uma figura deslocada em plena luz do dia. A jovem filha do casal, de cabelo preso impecavelmente, cheio de glitter, sufocada num vestido novo, se aborrecia, pois de brincar e até de  sentar foi proibida para não amassar a roupa. Estava arrependida por ter concordado em ir naquele almoço esdrúxulo.

– E aí, estou bem? – perguntou o pai descendo as escadas.

 -Se melhorar, estraga, Olavo! Agora, vamos logo, depressa pra não atrasar! – respondeu Magda, impaciente, endireitando o colarinho do marido.

Apressados e apertados naquelas roupas engomadas, a família Tenuzzi entrou em seu carro popular para ir no almoço da casa do Betinho.

Roberto Bragança Garrett de Prado, o Betinho, tinha 12 anos e mal cabia tamanha elegância naquele menino de 1,40m que já aguardava a família Tenuzzi na porta de sua mansão. “Vocês estão dez minutos atrasados.”, foi a primeira coisa que disse ao se aproximar dos convidados. “Tudo culpa sua, Olavo!”- esbravejou baixinho Magda ao ouvido do marido. Olavo tremia.

A motivo daquele singular encontro entre os desajeitados Tenuzzi e a endinheirada família Garrett de Prado era simples: na semana passada,  durante a aula de Ciências, Betinho havia, pelas razões misteriosas que compõem a vida, reparado na inocente beleza de Violeta Tennuzzi. Ela retribuiu com um sorriso acanhado. Porém, antes que houvesse qualquer prosseguimento nesta troca de olhares e pequenas graças que acometem as paixões inocentes, Betinho convocou as famílias para se conhecerem. Violeta não entendendo muito bem, acatou ao pedido daquele menino tão convicto e engomado.

Enquanto os Tenuzzi percorriam a casa, ficava claro o contraste de classes sociais. Logo se percebia que até os cães da casa tinham uma vida mais farta que a de Olavo. Os Tenuzzi não tinham o que reclamar da vida que eles levavam, é claro, mas a riqueza com que acabavam de se deparar causava na família algo entre a inveja e a consternação.

Os pais de Betinho eram educados e elegantes como o filho, e lacônicos e arrogantes na mesma medida. Os anfitriões ofereceram aperitivos franceses e drinques exóticos antes do almoço. conversa entre os adultos não fluía,  mantendo-se apenas em alguns comentários sobre o clima e a crise econômica. Betinho, quieto, só observava, atento como uma águia. Já Violeta esperava e sorria, paciente e doce, como sempre.

Almoçaram em silêncio. Os Tenuzzi estavam claramente constrangidos, mas não arriscavam  falar pelo medo de deixarem ainda mais claro a sua  falta de jeito. A família milionária parecia acostumada com o silêncio e constrangimento alheio. Ao fim do almoço, o menino chamou:

-Sr. Tenuzzi, vamos até  a sala. Quero ter uma conversa a sós com o senhor.

Olavo voltou a tremer, ainda mais intensamente. O menino mostrou ao velho a poltrona em que devia se sentar, enquanto sentava do lado posto. Sentados, ambos se olharam por alguns instantes: Olavo com suas fartas manchas de suor pela camisa, era a imagem do homem desesperado;  Betinho, sério e impecável, parecia conter toda a juventude do mundo.

– Senhor Tenuzzi, o senhor se incomoda se eu chamá-lo de Seu Olavo?

-Nã, nã..não, claro que não…

-Então, Seu Olavo… –  “este menino dá medo“, Olavo pensou -… Gostaria de saber quais são as suas intenções com a sua filha.

Direto ao ponto, o menino fez a pergunta que era, no fim, todo o objetivo daquela reunião. Betinho queria saber se teria um sogro à altura, se a família de Violeta era alguém que iria atrapalhar ou ajudar seus desejos e planos.

-Intenções?!?! Er, muitas, acho….

-Seu Olavo, – interrompeu o menino – ..atualmente, Violeta e eu estudamos em uma excelente escola tradicional, Daniel Allegro..Você pretende mantê-la até o Ensino Médio?

-Sim, sim, lógico. Com…

-Mas você tem como me assegurar que irá mantê-la lá? Você conseguirá bancar?

Olavo gaguejava e não conseguia dizer nada. O menino prosseguiu:

-Melhor dizendo: você tem como assegurar que ela sempre terá uma educação de qualidade? – antes que o homem pudesse responder: – Por que você sabe que eu não me permitirei me casar com uma menina que estude em escolazinha de bairro, não é???

Olavo não sabia se estava mais confuso com a menção ao casamento ou com o futuro da educação da filha.

-Sabe, Seu Olavo, tenho ouvido por aí que seu negócio de tecidos está indo mal das pernas.

-São tempos difíceis, garoto. Mas vamos nos recuperar! – respondeu num rompante de segurança.

– Fico feliz de sua confiança, Seu Olavo. Mas acho que está na hora de você saber que de palavra só vive o dicionário. – Olavo tentava entender o ditado – O senhor me parece ter boas intenções, sabe, Seu Olavo? (o garoto se levantou e se aproximou com um leve um sorriso) Você é um bom coroa! (deu tapinha nas costas). Mas…

-Mas????

-Mas receio que o senhor não seja bom suficiente para ser meu sogro….

Olavo se desesperou e disse, de joelhos e em prantos:

-Betinho, eu vou fazer tudo direitinho!! Eu prometo! Não vou desapontar você. Confia em mim!

Betinho pareceu finalmente ter alguma compaixão. Assentiu com a cabeça, ” está bem, Seu Olavo! Mas se eu souber que você não está andando na linha, você vai ver só!”

Naquela semana, Betinho quis dar as mãos para a Violeta. Ela quis pular corda.  Seu Olavo começou a fazer horas extras na sua loja de tecidos, procurando soluções para salvar o negócio. A mãe de Violeta só deixava a menina ir para a escola com roupas novas, com receio de desagradar o genro. Ela colocava o seu shorts surrado assim que chegava na escola.

Na segunda seguinte, porém, Violeta recebeu uma amarga cartinha de Betinho:

“Violeta, minha querida, 

infelizmente, não poderemos manter nossos planos de nos enamorar e mais tarde casar. Antes que você proteste injustamente, o problema não é seu pai.  Descobri, para a minha tristeza, que sua mãe tem joanete. Sabe-se por comprovação científica, que esse é um mal com alta predisposição genética. Você entenderá, então, que não poderei passar a vida ao lado de alguém cujo pé não caiba nas mais refinadas sandálias. Tivemos alegres momentos que guardarei no coração

Sempre seu,

Betinho

Violeta amassou a carta, suspirou de alívio e foi brincar de queimada no recreio.

 

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Fernando Caldeira, especialista em literatura infantil, é o cronista oficial do Cadê.

 

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