A Revolução Farmacêutica

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Apresentamos à vocês mais uma divertidíssima coluna do nosso querido Fernando Caldeira. Além de boas risadas, também nos faz pensar nos desafios do processo de se tornar pai e mãe. Pois é, maternidade e paternidade são desafios constantes e, por que não dizer, questões existenciais! É ou não é? Boa leitura!

 O restaurante era francês, à luz de velas e tudo. “Bistrô”, ele aprendeu: é como as pessoas chiques chamam os restaurantes franceses. Sempre caros, claro. Mas, tudo bem, pois essa era uma ocasião importante. Ou pelo menos foi isso o que sua namorada havia anunciado por celular. O motivo ela não podia contar: era surpresa. Não ia falar nem por whatsapp, por skype e nem nada: tinha jurado a si mesma o sigilo absoluto. Só ao vivo. Aí ela sugeriu esse lugar , o tal de “Le Nouveau”, ´ideal para uma conversa romântica à dois`, ela havia dito.

– O que você tá achando? – a namorada perguntou.

-É. É bem… – (o rapaz estava ocupado tentando entender o cardápio em francês)

-Charmoso???

-Isso! Exatamente o que eu ia falar, meu amor: charmosérrimo!

-Ai, que bom que você gostou, meu amor. Sabia que você ia gostar. É a sua cara, não é?

-É.. Com certeza, amorzinho…E o que você vai pedir?

-Olha, meu amor, – ignorando completamente a pergunta, a menina emendou – preciso admitir: tô muito ansiosa!

-Ansiosa pra quê? A gente já chegou no restaurante, já sentamos na nossa mesa. Tá tudo bem, só falta achar alguma coisa pra pedir…

-Amor, eu queria esperar o final do jantar pra te contar, mas acho que não consigo… – ela roía as unhas à cada final de frase.

-Não consegue o quê?? O que tá acontecendo, Juliana? – desconfiado, ele começou a suspeitar que algo sério estava acontecendo.

-Vou contar de uma vez…(mais uma roída nas unhas)..  É isso… Melhor contar logo!

-Contar o quê , Juliana, pelo amor de deus! Desembucha!

-Adriano…

-Fala!!

-Eu estou grávida, meu amor! – a moça deu um grande sorriso e estendeu as mãos lisas em direção ao namorado, com um tímido gritinho de “ieei!”.

Adriano largou o cardápio na mesa e ficou alguns instantes olhando, pasmo, para sua namorada.

-Meu amor, eu não s….

-Eu sei, meu amorzinho! Também fiquei assim, depois que fiz o teste. A gente fica sem palavras, não é?

-Isso. Exatamente, isso, meu amor… -o rapaz começou a ficar branco como cera e se segurou na ponta da mesa para não desmaiar. Chamou o garçom e pediu um uísque 16 anos. Ao ser anunciado que serviam somente vinhos franceses, pediu ao garçom metido à besta que apenas trouxesse o que tivessem de mais forte. A moça, enquanto isso, disparava um falatório.

-Já fiz uma lista de nomes. Para meninos e meninas. VocÊ tem alguma preferência de sexo? Menino dever ser mais fácil de criar, não acha? Era o que minha mãe o que dizia pelo menos…Ah, mas se for menina tem cada roupinha tão linda, tão thucuthucu! Nem sei o que quero!  Ai, tô tão empolgada, que já estou até seguindo um monte de coisas pra mães e bebês no insta e no pinterest. Também já montando a lista de roupinhas, e a de enxoval (pensei num tema de sáfari, unissex, sabe?), de mamadeiras, de carrinho, de lencinho. Aí é tanta coisa, né! É um barato, você tem que ver!

O homem conseguiu apenas murmurar algo e levantar a sobrancelha. Ela continuou:

-…E como isso era algo que nós dois já tínhamos falado, que já queríamos, penso que nós dois concordamos em tomar o Dysenvolve, não é, meu amor?

Nesse instante, Adriano sentiu náusea e, sem conseguir falar palavra, foi correndo até o banho, deixando a namorada confusa na mesa. O rapaz vomitou algumas vezes na pia do banheiro. Com o rosto pálido, olhou-se no espelho, tentando entender a mudança de eventos que estava acontecendo em sua vida. De fato, ele e Juliana haviam falado em ter filhos, que era um desejo recíproco, mas haviam conversado sobre o tema com a leveza dos namorados recém-apaixonados. Se conheciam há poucos meses, não estavam nem perto de estar casados e nem mesmo falavam em morar juntos.

Se isso tudo tivesse acontecido um ano antes, aí ia ser outra coisa: o casal ia ter tempo de pensar juntos na gravidez e eles poderiam, aos poucos, construir as suas histórias como pai e mãe. Mas os tempos são outros desde a invenção do Dysenvolve.

O Dysenvolve era a maior revolução de toda a história da indústria farmacêutica, pois passou  a permitir algo nunca antes imaginado por homens e mulheres: a gravidez-relâmpago. Com uma mistura de doses cavalares de hormônios, vitaminas e energéticos, a gestação daquelas que ingerem Dysenvolve dura apenas 24 horas. A barriga das mulheres parece crescer como um bolo gigante.  Milhões de casais do mundo todo rapidamente adotaram a medida de tomar a substância para evitar a espera e os desconfortos prolongados da gravidez. Grupos de mães se uniram para fundar o movimento “Dysenvolve Livre”, defendendo o seu uso sem precisar de receitas. Aos poucos, se tornou prática comum que os médicos, inicialmente desconfiados quanto aos efeitos colaterias,  recomendassem às suas pacientes o Dysenvolve. O remédio ajudou e muito as agendas dos obstetras, anestesistas e cirurgiões. Dessa forma, o número de pacientes aumentou exponencialmente.

O Dysenvolve era um verdadeiro milagre da ciência. A novidade era celebrada pelo mundo todo e todos estavam felizes. Com excessão feita, claro, de alguns hippies e daqueles médicos naturebas que eram contra a substância, alegando ser algo contra a ‘natureza humana”. E de Adriano, desde que se soube “grávido”.

Adriano lavou o rosto  e tentou se recompor. Voltou à mesa, rezando que tudo fosse uma pegadinha da namorada.

-Você está bem, amor? – ela demonstrava uma leve preocupação.

-Tô melhor…..

-Está bem. Já que você está bem.. Bom, vamos voltar ao assunto então! Como já concordamos quanto ao Dysenvolve, tomei a liberdade, enquanto você estava no banheiro, de tomar o Blue Sexus.

-Blú-o-quê???

-Ai, amor! – a moça deu uma risada; divertia-se – você tem muito o que aprender até amanhã mesmo, hein, seu bobinho! O Blue Sexus é uma pílula pequenininha que depois que a grávida toma, no próximo xixi, ela já descobre o sexo do bebê. Se for verde é menina, se for roxo é menino.

O que aconteceu em seguida foi tudo muito rápido. Com o desmaio, um dos garçons chamou a ambulância. Levaram Adriano ao hospital, vomitando e alucinando pelo caminho todo. Dizia ao enfermeiro que queria dormir por nove meses. ” me diz que eu posso dormir, me diz!!“, suplicava. Devido à perda de líquidos, teve que ficar algumas horas ainda no hospital, tomando soro e em observação. Ao sair do hospital, foi direto à maternidade. Seu filho, prematuro de 16 horas, tinha nascido. Pedro, era o nome do bebê. A mãe tinha escolhido o nome enquanto o pai estava ausente.

 

Caio AndreucciA Revolução Farmacêutica

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